‘Pearl’: Nasce uma estrela e seu nome é Mia Goth – 08/02/2023


Em um mundo perfeito, Mia Goth estaria, no mínimo, concorrendo a todos os grandes prêmios de atuação do ano. É esse o nível absurdo de sua atuação em “Pearl”, filme de terror elevado muito além do convencional graças à sua performance absolutamente eletrizante.

“Pearl” pode parecer um filme de terror corriqueiro, com um assassino deixando uma pilha de corpos em seu caminho. Mia, que assina o roteiro com o diretor Ti West, adiciona camadas na construção da personagem que deixam o filme mais interessante. O demônio, como dizem, está nos detalhes.

A gênese de “Pearl” está na colaboração anterior da atriz com o cineasta, o cultuado “X – A Marca da Morte”. Confesso não ter dado muita bola ao filme, um slasher tradicional que parte de uma premissa ousada – a exploração da indústria pornográfica nos anos 1980 – e termina numa trilha comum ao gênero.

O ponto alto já era Mia Goth, em papel duplo como a aspirante a estrela Maxxine e a própria Pearl, uma mulher idosa que, ao lado do marido Howard, trucida a pequena trupe cinematográfica que escolhe sua fazenda como locação. Havia algo de especial em Mia, que fez de Maxxine uma final girl empolgante, e de Pearl uma presença aterrorizante.

Em “Pearl” voltamos algumas décadas no tempo, quando ela é uma jovem presa em um mundo que a consome. “Abandonada” por Howard, que partiu para o front europeu na Primeira Guerra Mundial, Pearl cuida da fazendo como mão de obra única, obedecendo à mãe opressora e cuidando do pai, um vegetal na cadeira de rodas.

Com os holofotes para si, Mia poderia ser estridente e exagerada como Pearl. Ela entendeu, contudo, que a espiral descendente à loucura de sua personagem abriria possibilidades dramáticas complexas e delicadas. Seria fácil abraçar o clichê “minha loucura é causada pelo ambiente opressor em que vivo”. Nada em “Pearl”, entretanto, é fácil.

Pearl (Mia Goth) leva seu pai para um passeio no lago

Imagem: Cinecolor/Universal

O caminho escolhido por Mia Goth é revelado nos detalhes. A descida à insanidade assassina de Pearl é revelada aos poucos. Vemos que existe algo perturbador em seu tratamento dos animais da fazenda. Em sua obsessão irrefreável pela fama. Em sua certeza der que nasceu para ser uma estrela. A cada momento que a realidade se impõe com sua mão pesada, fica claro que não há outra conclusão a não ser a loucura completa.

Assistir a Mia Goth desenhar esse caminho é uma revelação, é acompanhar o momento em que uma jovem atriz transcende o gênero pelo qual ela é identificada e transforma seu personagem em algo maior que os limites da obra em que ela está inserida. Ao mesmo tempo em que existe uma melancolia em ver uma jovem ter seus sonhos destroçados, surge também a repulsa em sua resposta a essa conclusão.

Portanto, não tenha ilusões: quando “Pearl” entra em seu terceiro ato, quando não há mais volta nos atos abomináveis, Ti West, que traz aqui decisões criativas inusitadas e estimulantes, solta as amarras e promove uma carnificina sem igual. A violência, entretanto, nunca é gratuita, mas uma ferramenta que ratifica a transformação da protagonista. É um momento ao mesmo tempo sublime e assustador.

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Ti West dirige Mia Goth em ‘Pearl’

Imagem: Cinecolor/Universal

Em um mundo perfeito, os recortes mais sensacionais da atuação de Mia Goth em “Pearl”, como seu confronto com sua mãe e um monólogo devastador perto do clímax, seriam clipes exibidos em qualquer cerimônia corajosa o bastante para reconhecer uma atuação perfeita em um filme de terror.

Não importa. Mesmo com a imperfeição do mundo, celebramos sem reservas não só a chegada de um exemplar de gênero tão bacana quanto “Pearl”, mas também a consagração de uma atriz tão interessante, corajosa, talentosa e hipnotizante quanto Mia Goth. Com ela o cinema só tem a ganhar.



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